O Blog do Roberto Porto


O Jogo do Senta

(primeira parte)

Por que Botafogo x Flamengo é, certamente, o terceiro clássico em termos de grande rivalidade no futebol carioca? Por que só Flamengo x Vasco e o tradicional Fla x Flu conseguem superar as expectativas de um confronto direto entre o rubro-negro da Gávea e o alvinegro de General Severiano? Para alguns, o já famoso duelo surgiu nos áureos tempos de Garrincha, no final da década de 50 e início dos anos 60, época em que o ponteiro do Botafogo fazia do Flamengo sua vítima preferida. Para outros, porém, o acirrado combate entre os dois clubes teria origem no período de Gérson, Jairzinho, Roberto e Paulo César no final da década de 60, quando o Botafogo foi bicampeão carioca e da Taça Guanabara – no tempo em que esta competição era disputada separadamente. Mas há os que apontam a origem de tudo nos 6 a 0 que o Botafogo aplicou no Mais Querido em 1972.

O Flamengo, por seu lado, sempre rebateu seus insucessos com algumas poucas vitórias famosas, como as do Jogo do Urubu, em 1969 – praticamente tirando do Botafogo a possibilidade do tricampeonato – ou as goleadas (6 a 0 e 6 a 1) aplicadas no rival na década de 80, quando o Botafogo era uma sombra do velho Glorioso. Seja como for, é indiscutível que quando Flamengo e Botafogo se defrontam é como se levassem para campo uma quase imperceptível carga de rancores passados e presentes e que, inevitavelmente, seguirão por quanto tempo os dois clubes se encontrarem através dos tempos.

Mas qual será a verdadeira origem dessa carga de rancores? Certamente não começou na era de Mané Garrincha e não foi apenas alimentada por Gérson, Jairzinho, Zico, Adílio, Leandro e tantos outros que envergaram as tradicionais camisas dos dois clubes.

Para os historiadores, o ponto crucial ocorreu há mais tempo.

Mas, afinal de contas, o que teria acontecido de tão marcante há tantos anos – mais de seis décadas –  precisamente na tarde ensolarada de um domingo, 10 de setembro de 1944? Em sua  marcha para a conquista de seu primeiro tricampeonato, após um discutido gol de Valido, na Gávea, na decisão contra o Vasco, o Flamengo, até aquele dia que entrou para o folclore do futebol carioca, perdera apenas dois jogos: o primeiro, diante do América, e o do final do turno, para o Vasco. Mas, na segunda rodada do returno, a tabela marcara um Botafogo x Flamengo para General Severiano. Para os alvinegros, seria a oportunidade de vingança dos 4 a 1 que sofrera na Gávea, no turno. Para os rubro-negros, a confiança era absoluta. O otimismo em relação à conquista do terceiro título seguido dominava o clube.

E General Severiano pegou um público extraordinário.

(segue abaixo)



Escrito por Roberto Porto às 20h23
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O Jogo do Senta

(final)

Com arbitragem de Aristides Figueira – o popular Mossoró – os times entraram assim em campo: Flamengo – Jurandir, Newton e Quirino; Biguá, Bria e Jaime de Almeida; Nilo, Zizinho, Pirillo, Sanz e Jarbas; Botafogo – Ari, Laranjeira e Ladislau; Ivan, Papeti e Negrinhão; Lula, Geninho, Heleno de Freitas, Valsecchi e Valter. O primeiro tempo foi duro e terminou com vantagem de 2 a 1 para o Botafogo, gols de Heleno e Valsecchi. Na etapa final, animado por sua torcida, o Botafogo chegou a colocar 4 a 1 (Valter e Heleno), o Flamengo diminuiu para 4 a 2 (Jarbas) mas, aos 31 minutos, Geninho fez o quinto gol. Começaram então as reclamações de jogadores e dirigentes rubro-negros. Para o Esporte Ilustrado, a bola chutada por Geninho batera na parte inferior do travessão e quicara dentro do gol para depois sair.

Para Mossoró, também.

Já os jogadores do Flamengo, Jurandir à frente, garantiam que a bola se chocara contra o travessão e voltara ao gramado. Por incrível que pareça, para muitos torcedores do Botafogo, atrás da baliza à direita das sociais, onde mais tarde surgiriam a Avenida Pasteur e o Túnel do Pasmado, a bola explodira dentro do gol mas batera no ferro que sustentava a rede. Formado o tumulto – com os alvinegros batendo bola à espera do reinício da partida – os jogadores do Simpaticíssimo, obedecendo ordens do banco e dos dirigentes Marino Machado e Francisco Abreu, simplesmente sentaram-se em campo. Quando o tempo se escoou, levantaram-se e retiraram-se cabisbaixos para os vestiários. Na súmula, Mossoró anotou o gol de Geninho, exatamente aos 31 minutos, e o resultado da partida foi homologado pela Federação como 5 a 2 para o Botafogo.

Durante a semana, a reclamação dos responsáveis pelo departamento de futebol do Flamengo prosseguiu. E os jornais, ironicamente, passaram a chamar a partida de O Jogo do Senta. É claro que com os recursos da televisão de hoje a dúvida seria tirada momentos após o chute de Geninho, embora de nada adiantasse para o árbitro. Mas, na época, nem mesmo as mais velozes máquinas fotográficas captaram o lance. O resultado é que durante muito tempo o debate seguiu acalorado. Para o Flamengo, porém, foi apenas um tropeço – inesperado, obviamente – na rota para o tricampeonato. Para os torcedores botafoguenses, porém apesar da vitória de 5 a 2, ficou um travo amargo na garganta. Numa época romântica e cavalheiresca como aquela, era imperdoável não aceitar uma derrota, principalmente por tantos gols de diferença.

Talvez esteja aí a origem da rivalidade que atravessa gerações.

E, por falar nisso, bela escolha fez Claiton. É ou não é?

Saudações Botafoguenses,

Roberto Porto
portoroberto@uol.com.br



Escrito por Roberto Porto às 20h22
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




As mais belas camisas do Glorioso

Carlos Martins da Rocha (1894-1981), o famoso Carlito das Gemadas, presidente campeão do Campeonato Carioca de 1948, é conhecido por suas inúmeras superstições – algumas delas verdadeiramente incríveis – sempre em defesa do seu amado e querido Botafogo de Futebol e Regatas. Mas pelo menos de uma coisa ele não é responsável: a criação da mais bonita camisa que o alvinegro de General Severiano usou em toda a sua história.

Assim como fizera no Vasco, o técnico uruguaio Ondino Vieira (1900-1984), que tivera uma passagem pelo River Plate de Buenos Aires, foi o autor da novidade. Em São Januário, Ondino acabou em 1944 com a camisa preta – que passava aos jogadores um calor dos diabos – e criou a que é usada hoje em dia com a faixa diagonal branca (ou preta) de acordo com o adversário.

No Botafogo, com rara inspiração, Ondino, contratado por Carlito em 1947, desenhou uma linda camisa listrada, com botões – quase uma camisa social esporte – que ilustra o Blog de hoje (graças à simpática colaboração de botafoguense Celso Silveira Rosa que me remeteu a foto – eu só tinha a do time formado e uma do Heleno, que está no meu livro e na capa do livro do colega Marcos Eduardo Neves, sobre o lendário centroavante).

Reparem que a citada camisa não tem punhos e, detalhe, a gola é igualmente preto e branca. E mais: notem o tamanho do escudo, hoje cada vez menor por causa dos patrocinadores. Infelizmente, a belíssima camisa não deu certo. Os botões arrebentavam com o mais leve puxão dos adversários e ela, a toda hora, saía para fora do calção. No ano seguinte, foi abandonada pelas de malha e os calções – aí já por ordem de Carlito Rocha – passaram a brancos. E deu certo, com o título de 1948. E só voltaram oficialmente a ser negros em 1957.

Por acaso, ainda garoto de calças curtas, assisti a duas históricas partidas do Glorioso com as lindas camisas usadas, na foto, da esquerda para a direita, por Nílton Senra, Teixeirinha, Santo Cristo e Ávila. Uma, levada por meu pai, em Álvaro Chaves, contra o Fluminense, quando o Botafogo venceu por 2 a 1, gols de Geninho e Teixeirinha. Ao final, mesmo não tendo marcado gols, a torcida do Botafogo invadiu o campo e carregou Heleno em triunfo. E ele, diante da social tricolor, fez gestos irônicos de quem estava colocando pó-de-arroz no rosto. A outra, também conduzido pela inesquecível figura de meu pai, foi em General Severiano, quando o Botafogo derrotou o América por 3 a 2, com três gols de Heleno, o último deles – o do desempate – numa cabeçada fulminante em cima da hora. Desse jogo guardo a recordação da contusão do goleiro Ary Nogueira César e a ida de Gérson dos Santos para o gol, pois não eram permitidas substituições.

Por volta de 1995, Carlos Augusto Montenegro me convocou para integrar uma comissão, chefiada pelo benemérito Jorge Aurélio Dominguez,  a fim de redesenhar a camisa tão amada. Consegui aumentar o escudo e manter o número de listras oficiais, que constam do estatuto. Depois disso, Mauro Ney Palmeiro me chamou para a mesma coisa. Diante de vários modelos da Penalty, optei pela melhor e ainda fiz mais: escolhi uma fashion, cinza, com escudo, para que os torcedores fossem ao estádio ou desfilassem com elas. Infelizmente, tudo foi por água abaixo. Hoje, quem escolhe os uniformes – medonhos – é o fabricante, com mais branco do que preto e números ilegíveis às costas. O que fazer?

Coisas que acontecem ao Botafogo...

Saudações Botafoguenses,

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br



Escrito por Roberto Porto às 18h44
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Que Botafogo será esse para 2007?

Tenho a mais absoluta e concreta das certezas de que o mais ferrenho torcedor do Botafogo – dos mais jovens aos mais veteranos – não terão a menor idéia que Botafogo é este aí da foto. Como sou jornalista e apaixonado pelo clube, além de, modéstia à parte, possuir uma invejável coleção de fotos do Glorioso, descolei esta hoje para perguntar aos leitores deste blog alvinegro da cabeça aos sapatos.

Com a série de dispensas, por razões técnicas, disciplinares e salários altos, assédio de outros clubes – vejam o caso Claiton – e atuações de empresários, o célebre alvinegro de General Severiano corre o sério risco de apresentar-se à sua torcida com um  grupo semelhante ao que aí aparece. Depois de uma campanha que os atuais dirigentes consideraram excelente – 12º lugar, com 13 vitórias, 13 derrotas e 12 empates – por mais otimista que seja não posso deixar de temer pelo pior.

Gosto demais de Carlos Augusto Montenegro e especialmente da doce figura que é Manoel Renha. Me dou razoavelmente com Bebeto de Freitas e desconheço o diretor de futebol Rivadávia Correia Meyer – deve ser parente do Rivinha, com toda a certeza. Mas as notícias que me chegam de General Severiano são as mais assustadoras possíveis. Além de Cuca, que se revelou um bom goleiro nos treinos, com quem mais poderemos contar? Segundo estou informado – e sou obrigado a me conformar com isso – o dinheiro do Glorioso anda curto, curtíssimo para ser mais exato. Diminuir a folha de um milhão – um exagero, concordo – para apenas 500 mil reais vai ser duro de roer. Quem vai querer jogar no Botafogo, que já perdeu Claiton, Túlio (o apoiador), Schwenck, Leandrão, Jonílson, César Prates, Camacho, Dodô e ainda vai dispensar Rui Cabeção, Scheidt e outros que fazem parte da barca alvinegra que partirá de General Severiano já agora nesses dias? E qual será o caminho de Zé Roberto, valorizado e cheio de urubus em cima?

Sei muito bem – ninguém precisa me dizer – que a Lei Pelé liberou geral e que os empresários, credenciados ou não, enchem a cabeça dos jogadores. A tal cláusula rescisória, com apenas um ano de contrato, é um convite à valsa. Nas dificuldades em que o clube se encontra, qualquer proposta, mais elevada, leva qualquer um, como Reinaldo e Zé Roberto. Podem levar o Wando, Felipe Adão – filho do Cláudio Adão, esse sim era craque – e outros menos votados. Não fará a menor diferença.

Mas e a base?

E a base que conquistou a duras penas uma vaguinha na Copa Sul-Americana, atrás do Vasco da Gama e do Mais Querido? Os parcos 51 pontos conquistados a duras penas nesse Brasileiro de 2006 só não foram ultrapassados por clubes, como o Tricolor das Laranjeiras que, por pouco, muito pouco mesmo, não despencou de novo pra Segundona.

E aí, com todo respeito a Montenegro e Renha, fica o meu temor. Como estaremos no Carioca – do qual somos campeões, mesmo com a contusão de Lúcio Flávio – e no Brasileiro do ano que vem? Acho que só São Carlito das Gemadas tem a resposta, porque Carlito (1894-1981) sabia tudo. Pode ser até que Eduardo Martins de Oliveira (1916-1950), o famoso Edu da Panair do Brasil, nos dê uma força lá do seu velho Constellation. Mas que a coisa está preta, está.

Para que os mais fanáticos não fiquem frustrados, aí vai o time da foto, posado em General Severiano: Edgar, Otávio, Carlos Alberto, Abigail, Brandão e Rubens (de pé): Élbio, Ariosto (este era bom), Basílio, Mário e Dodô. Como o time jogava, me perdoem os leitores, mas não sei. Mas não devia ser grande coisa e tanto faz como tanto fez.

Será que vamos ver um time assim em 2007?

Saudações Botafoguenses,

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br



Escrito por Roberto Porto às 13h47
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, Homem, Portuguese, Esportes, Arte e cultura, O BOTAFOGO, MINHA MAIOR PAIXÃO IMATERIAL
Histórico
Outros sites
  MEU LIVRO - clique aqui para comprar
  ESPN BRASIL - Leia minha coluna semanal
  DIRETO DA REDAÇÃO
  LIVROSDEFUTEBOL.COM - todos os livros de futebol com 10% de desconto e frete grátis
  VESTIÁRIO ALVINEGRO - assine a única agência de notícias sobre o Botafogo na internet
  ARQUIBA BOTAFOGO, o blog do meu amigo Paulo Marcelo Sampaio
  MUNDO BOTAFOGO, o blog do luso-alvinegro Rui Moura
  BLOG DA MALU CABRAL - é só para botafoguenses
  CORAÇÃO ALVINEGRO, um blog botafoguense de coração
  O BLOG DO GAROTINHO - José Carlos Araújo é o maior locutor do Brasil
  BLOGSTRAQUIS - de meu considerado amigo Moacir Japiassu
  IQUE - veja o blog do meu amigo e fantástico cartunista
  CLAUDIO JORGE - um tremendo músico, botafoguense de carteirinha
  CANAL BOTAFOGO - meu parceiro César Oliveira escreve lá
  CANTINHO BOTAFOGUENSE - o blog do Rodrigo Federman, de Vitória (ES)
  AMOR AO BOTAFOGO, blog do Rodrigo Medeiros
  BLOGTAFOGO - do Ricardo Nepomuceno
  SNOOPY EM PRETO E BRANCO, do meu parceiro Fábio Deus
  FOGOHORIZONTE - a maravilhosa torcida do Fogão em Belô
  CRÔNICA ESPORTIVA - do meu amigo Diego Mesquita
  JORNAL DE DEBATES, cujo editor no Rio é o botafoguense PC Guimarães
  A LÍNGUA DA BOLA, interessante site do Professor Feijó
  BLOG DO HELIO ARCANJO - que, como eu, também vai de Kombi...
  FUTEBOL É UMA CAIXINHA DE SURPRESAS, tremendo blog do Luiz Fernando Bindi
  BLOG DO ERALDO LEITE - botafoguense e imperiano feliz
  PORRADA NELES! - o jornalista botafoguense PC Guimarães baixa o sarrafo na "flaprensa" e defende o Botafogo
  BLOG DO JOÃO-NINGUÉM, do Vinícius D´Ávila Barros
  FOGOBLOG by Álan Leite
Votação
  Dê uma nota para meu blog



O que é isto?