O Blog do Roberto Porto


Garrincha e Gérson em La Paz

Quem disse que Garrincha e Gérson não jogaram juntos pelo Botafogo?

Claro que jogaram. Pouco, é verdade, mas jogaram. Pelo menos até o final da temporada de 1965, quando Garrincha teve seu passe vendido ao Corinthians. E esta foto, batida pelo jornalista alvinegro Oldemário Touguinhó, em La Paz, Bolívia, em março de 1964, é uma prova disso. Nela, para os jovens torcedores que não viveram a época, aparecem, de pé, Joel Martins, Élton, Manga, Nílton Santos, Zé Carlos e Rildo, e, agachados, Garrincha, Gérson, Arlindo, Jair e Zagallo. O time, na prática, jogava com Manga, Joel, Zé Carlos, Nílton Santos e Rildo; Élton, Gérson e Zagallo; Garrincha, Arlindo (deslocado para o ataque) e Jairzinho.

Foi difícil embarcar Gérson no avião que o Botafogo tomou para a Bolívia, a fim de disputar o Torneio Jubileu de Ouro em La Paz. Mas valeu a pena o pavor que o Canhotinha de Ouro sentiu ao sobrevoar a Cordilheira dos Andes. O alvinegro foi campeão invicto, derrotando o Banik Ostrawa, da então Tchecoslováquia, por 2 a 0; o Racing, de Montevidéu, por 2 a 1; o Strongest, da Bolívia, por 2 a 0, e o Boca Juniors, de Buenos Aires, por 2 a 1. E antes de partir de volta ao Rio, a fim de encerrar a rápida excursão, o Botafogo ainda goleou o Aurora, de Cochabamba, também da Bolívia, por 5 a 2. E voltaram a estar juntos, mais tarde, em julho, na Argentina, quando o Glorioso perdeu do Boca por 2 a 1 (sem Garrincha) mas venceu o River Plate por 4 a 3 e o Barcelona, da Espanha, por 2 a 0. Bons tempos...

Infelizmente, Garrincha e Gérson – famosos adversários na final do Campeonato Carioca de 1962 – foram de épocas diferentes. Mané nasceu em 1933 e chegou ao Botafogo em 1953, meses antes de completar 20 anos. Gérson, por sua vez, é de 1941 e só desembarcou em General Severiano em 1963, pouco depois de um desentendimento com Flávio Costa. Curiosamente, no primeiro coletivo de Gérson no Botafogo, ainda sem seu material que ficou na Gávea, ele usou as chuteiras de Garrincha, uma vez mais poupado já com sérios problemas nos joelhos. E treinando entre os reservas – não mais podia ser escalado no Campeonato Carioca de 1963 – Gérson marcou um golaço, dando um chapéu em Nílton Santos, na baliza à direita das sociais.

Outra curiosidade dessa extraordinária foto é a presença de Mário Jorge Lobo Zagallo, nascido em 1931 – dois anos a menos do que Garrincha – e que apresentou-se ao Botafogo logo após a Copa do Mundo de 1958, após começar no América e ser titular do Simpaticíssimo. Pouco tempo depois, ele viria ser técnico do Botafogo, comandado o time que se sagrou bicampeão carioca em 1967-1968, que contava, entre outros, com os antigos companheiros da foto, Gérson, Jairzinho e Zé Carlos. E foi em 1964, ano do referido torneio em La Paz, que Nílton Santos encerrou sua fantástica carreira no Botafogo, numa partida contra o Mais Querido, no Maracanã. Nesse dia, se vencesse a partida, o Simpaticíssimo seria bicampeão carioca. Se empatasse, iria para um supercampeonato com Fluminense e Bangu. E, se perdesse, iria para o espaço.

Um gol de cabeça de Roberto Miranda enviou o Mais Querido para a estratosfera...

Saudações Botafoguenses,

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br

P.S.: Faço a mais absoluta e fechada questão de manter minha confiança na Gol – Linhas Aéreas Inteligentes, apesar do acidente com o Boeing 737-800, no vôo 1907, pilotado pelo comandante Décio Chaves Junior. Ainda este ano, ao longo de vários meses, completei nada menos do que 150 vôos na Gol, entre Rio e São Paulo, nos Boeing 737-700, e sou testemunha da seriedade e aplicação de todos os componentes da empresa aérea – dos pilotos às comissárias e comissários. Pelo telefone, conversei longamente com o meu amigo Luiz Antônio Stolze Franco, também comandante da Gol, carioca e botafoguense apaixonado, apesar de morar em São Paulo, e expressei-lhe meus votos de pesar pela perda dos companheiros – seis ao todo – além dos 149 passageiros. No momento do acidente, nos céus do Oeste, Stolze pilotava um Boeing 737-800 de Recife a São Paulo, com escala no Rio de Janeiro.



Escrito por Roberto Porto às 14h38
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Pavão dá sarrafada em Nílton Santos

Jamais gostei de Flávio Costa (1906-1999). Sempre achei que era um treinador grosseiro, conservador e, principalmente, por não ter percebido que o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950, era um time que tinha que ser respeitado. Mas, paralelamente, não posso deixar de reconhecer que ele, de certa forma, contribuiu, a seu modo, para a conquista do primeiro Mundial, na Suécia, em 1958. De que maneira? Simplesmente porque dirigiu a primeira excursão da Seleção Brasileira à Europa, em 1956. Os jogadores, pela primeira vez, representando o País, tomaram contato com o futebol que era praticado no Velho Mundo – mesmo com a curta distância de onze anos após a II Guerra Mundial e ao suicídio do ditador nazista Adolfo Hitler (1889-1945).

Na despedida da excursão, a nove de maio, o Brasil enfrentou a Inglaterra no Estádio de Wembley – hoje demolido. E a foto que ilustra este Blog, que descobri em meus arquivos implacáveis, mostra os dois times entrando em campo. Pelo Brasil, Nílton Santos vem à frente, com a bola, seguido por Gilmar, Pavão, Gino, Orlando, Álvaro, Djalma Santos, Paulinho Almeida, Dequinha e Canhoteiro (Didi e Zózimo não aparecem). Pela Inglaterra, também com a bola, surge o veterano Billy Wright, seguido por Tommy Taylor, que morreria pouco depois num desastre de avião, na Alemanha, com o time do Manchester United. Um dos sobreviventes foi Bobby Charlton que, 10 anos depois, seria campeão mundial e enfrentaria o Brasil na Copa de 70.

Empolgado com a partida, jogada em dia de semana, pedi ao amigo botafoguense Luiz Eduardo Paes Leme (1939-1977) o rádio de pilha que ele havia ganho do pai e escutei o jogo em plena aula no Colégio São Fernando. Diante das 97 mil pessoas em Wembley, a Inglaterra deu um verdadeiro baile no Brasil, vencendo por 4 a 2, com dois gols de Tommy Taylor, de cabeça, e dois de Colin Granger, contra um de Paulinho Almeida e outro de Didi. Detalhe: com grande atuação, Gilmar defendeu dois pênaltis (um inexplicavelmente cometido por Didi, outro por Zózimo). A grande figura da partida, que enlouqueceu a defesa brasileira, foi Stanley Mathews, que aproveitou-se do 3-2-5 de Flávio Costa – jogando na famosa e ultrapassada diagonal.

Anos depois, já trabalhando como jornalista, conversei com Nílton Santos sobre aquele jogo e ele, sem qualquer mágoa, confirmou que a Seleção Brasileira não viu a cor da bola, apesar do placar ser, digamos assim, até certo ponto, modesto.

“Em determinado lance – relembrou Nílton Santos com seu modo calmo de contar as coisas – o Pavão (jogador do Mais Querido) estava tão perdido que me deu uma sarrafada na área. Levei um tombo, me sujei todo, fiquei irritado e não pude me conter. Gritei com ele: “Olha, Pavão, preste atenção nas camisas: a minha é amarela igual à sua... Livre a minha cara, por favor!”.

Pouco depois, excursão encerrada, Nílton Santos e Didi juntaram-se à delegação do Botafogo que excursionava pela Europa. E foi no exterior que Didi vestiu, pela primeira vez, a camisa alvinegra. E Garrincha? Ora, Garrincha era literalmente ignorado por Flávio Costa, que o achava irresponsável.

Coisas do futebol...

Saudações Botafoguenses,

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br



Escrito por Roberto Porto às 20h57
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O Time do Camburão

Abatido psicologicamente com a venda da histórica sede de General Severiano para a Vale do Rio Doce, em 1976, o Botafogo chegou ao ano da graça de 1977 carecido de afirmação. O que fazer diante da verdadeira catástrofe que se abatera sobre o clube? Marechal Hermes, com todo o respeito, assemelhava-se a um desterro ou degredo. Suas arquibancadas de madeira, sustentadas por complicada trapizonga tubular, não atraíam o torcedor, que se sentia psicologicamente arrasado. Pode-se dizer que os eternos inimigos do glorioso alvinegro babavam de satisfação e alegria. Para completar o quadro de indigência, a pensão de dona Carlota, nas proximidades do novo estádio, não recebia pela comida que fornecia.

Diante do quadro desolador, o presidente Charles Borer (1929-2001) tentou reverter o quadro de decrepitude reforçando o elenco. O fato é que, trocando e comprando, de repente o Botafogo viu-se transformado numa espécie de refúgio de jogadores talentosos, famosos e problemáticos misturados aos poucos que as divisões de base tinham revelado. Como num passe de mágica, de uma hora para outra passaram a desfilar com a camisa da Estrela Solitária nada menos do que Perivaldo, Manfrini, Mário Sérgio, Renê, Rodrigues Neto, Gil, Dé, Ubirajara Alcântara e Paulo César Lima, que se juntaram a Osmar, Ademir Vicente, Luisinho Rangel, Bráulio e outros.

Foi então que num belo domingo de sol e clássico no Maracanã, o repórter-radiofônico Deni Menezes encontrava-se à espera do ônibus que conduzia a delegação alvinegra. Dotado de rara sensibilidade e extrema ironia, Deni, em determinado momento, abriu o microfone e chamou o comando da jornada esportiva:

– Atenção, José Carlos: acaba de chegar ao Maracanã o Time do Camburão

Pelo que me recordo, a Rádio Nacional quase saiu do ar, tantas as gargalhadas que a informação provocou. Hoje, vários anos passados, a espirituosa rapaziada que integra as transmissões de futebol ainda tem dúvidas: qual terá sido a melhor invenção de Denis Menezes? O Time do Camburão ou Zandonaide, o Garoto do Caramanchão?

É possível que atualmente a realidade tenha se misturado ao folclore e nem mesmo os mais apaixonados torcedores do Botafogo saibam a verdadeira e histórica formação do autêntico Time do Camburão (na foto, uma das escalações do Camburão). É provável que os mais bem dotados de memória escalem a equipe com Zé Carlos, Perivaldo da Pituba, Osmar, Renê e Rodrigues Neto; Luisinho Rangel, Manfrini e Paulo César; Gil, Dé e Mário Sérgio. Na verdade, a essa altura do campeonato o que importa não é exatamente o fato e sim a versão do fato. E O Time do Camburão passou a integrar o a história do Maracanã como aquele que reuniu o maior número de nômades que o futebol brasileiro tem notícia. Pelo menos até os dias atuais.

Quando a situação parecia incontornável, Charles Borer decidiu enquadrar o Time do Camburão. Simplesmente contratou o delegado Luiz Mariano, ex-São Cristóvão, para técnico, e nada menos do que o Homem de Ouro Hélio Vígio para preparador físico. Mas o panorama não mudou. Os jogadores, alegres e eternamente bem-humorados, porque o presidente passou a lhes pagar em dia os salários, acabaram atraindo os dois integrantes da então feroz polícia civil carioca para seu lado. Os treinos em Marechal Hermes eram uma festa. E como os repórteres consagrados lá não tinham coragem de aparecer, só os mais jovens e estagiários levavam as notícias para as redações ou as transmitiam, sussurrando, por telefone. Informação virou sinônimo de delação.

Mas, a rigor, o que fez de notório o Time do Camburão?

Ao que consta, nada de mais. Pelo que estou informado, os ânimos só ficavam ligeiramente exaltados nas enfadonhas viagens de ônibus para Campos e Volta Redonda. Para matar o tempo, única e exclusivamente o tempo, é bom que se frise, alguns jogadores viajavam armados. E tal qual nos filmes de caubói do cinema americano, quando a caravana alvinegra passava por uma pequena cidade, da janela do coletivo os jogadores disparavam seus trabucos para o alto, numa espécie de saudação às comunidades.

Qualquer semelhança com os homens do faroeste americano, Jesse James (1847-1882), Butch Cassidy (1866-1908) e Sundance Kid (1867-1908), deverá ser debitada na conta da mera invenção ou coincidência.

Saudações Botafoguenses,

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br



Escrito por Roberto Porto às 11h02
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