O Blog do Roberto Porto


Presente de grego para o Urubu

Naquele feriado nacional de quarta-feira, 15 de novembro de 1972, o Mais Querido, aniversariante do dia, era o favorito absoluto para a partida daquela tarde, no Maracanã, contra o rival Botafogo, pelo então Campeonato Nacional. Campeão carioca sob a orientação de Mário Jorge Lobo Zagallo, o time da Gávea contava com quatro ex-jogadores alvinegros, todos eles da mais absoluta confiança do treinador: o lateral-direito Moreira, o ponteiro-direito Rogério, o meia-armador Humberto Redes e, estrela das estrelas, o campeão do mundo Paulo César Lima. O Botafogo, por seu lado, tinha uma equipe forte, principalmente o ataque, mas o técnico Sebastião Leônidas não conseguira, ainda, que a equipe mostrasse conjunto. O time era tão cheio de altos e baixos que ganhou da imprensa o apelido A Alegria do Nordeste, de tanto perder por lá.

Os times jogaram assim: Botafogo – Cao, Mauro Cruz, Valtencir, Osmar Guarnelli e Marinho Chagas; Nei Conceição, Carlos Roberto e Ademir Vicente (Marco Aurélio); Zequinha, Rodolfo Fischer (Ferreti) e Jairzinho. Flamengo – Renato, Moreira, Chiquinho Pastor, Tinho e Rodrigues Neto; Liminha, Zanata (Mineiro) e Paulo César; Rogério (Caio Cambalhota), Fio e Humberto Redes, este último escalado na frente para tabelar com Fio e permitir a penetração de Paulo César pela esquerda da retaguarda do Botafogo. Para uma partida que não era decisiva, as bilheterias do Maracanã trabalharam muito, pois venderam 46 mil 279 ingressos, a maioria para torcedores rubro-negros.

Apesar do favoritismo do Mais Querido, o Botafogo estava num dia inspirado. E curiosamente, naquele 15 de novembro, o Furacão da Copa Jairzinho e o argentino Rodolfo Fischer, embora não se falassem, entenderam-se às mil maravilhas. Os dois, por sinal, enlouqueceram a defesa rubro-negra em apenas meio-tempo: Jairzinho abriu o escore aos 15 minutos, Fischer fez 2 a 0 aos 35 e 3 a 0 aos 41. O escore já era alarmante para um clássico da envergadura de um Botafogo x Flamengo, mas quem conhecia as artimanhas de Zagallo sabia que, apesar da diferença, muita coisa poderia mudar na segunda etapa. Não para uma reviravolta no placar, mas, pelo menos, para a conquista de um honroso empate.

Mas para o Flamengo o segundo tempo foi catastrófico. Jairzinho aumentou para 4 a 0 aos 23, o mesmo Jairzinho, de letra, fez o quinto gol e finalmente, Ferreti, que substituiu Fischer, colocou 6 a 0 no placar. A torcida do Flamengo ficou chocada. Como o campeão carioca poderia perder de 6 a 0? O que acontecera em campo?

Até hoje, mais de 30 anos passados, ninguém sabe o que ocorreu.

Mas o sorriso de Jair, com sua cabeleira afro (a foto que ilustra o blog de hoje é exatamente do dia da goleada), levou os torcedores alvinegros a cantarem:

Nós gostamos de vo...6!

Saudações Botafoguenses

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br



Escrito por Roberto Porto às 19h25
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O maior artilheiro da história do Botafogo

Valdir Cardoso Lebrego, o Quarentinha, foi maior artilheiro da história do Botafogo de Futebol e Regatas, com 308 gols. Nasceu, no Pará, a 15 de setembro de 1933, e morreu no Rio, antes de completar 63 anos, a 11 de fevereiro de 1996. Estreou no Botafogo contra o São Paulo, no Maracanã, a 26 de junho de 1954, na vitória de 5 a 1 sobre o tricolor paulista pelo extinto Torneio Rio-São Paulo.

Quarentinha marcou um gol de pênalti – uma bomba indefensável no ângulo esquerdo do goleiro do tricolor paulista, cabendo a Dino da Costa (2), Carlyle Cardoso (1919-2002) e Paulinho Omena completarem o placar. Sua despedida ocorreu a 21 de novembro de 1964, no Maracanã, pelo Campeonato Carioca, no empate de 1 a 1 com o Bonsucesso. O gol alvinegro foi marcado por Arlindo, vendido depois ao futebol mexicano e ex-companheiro de Jairzinho e Roberto Miranda nos juvenis.

Quarentinha – filho de um paraense que no Exército tinha o número 40 (daí seu apelido como jogador) – disputou 446 partidas pelo Glorioso, foi campeão carioca de 1957 e 1962, campeão do Rio-São Paulo de 1962 e 1964, campeão do Quadrangular de Bogotá em 1960, campeão do Pentagonal do México em 1962, campeão do Torneio de Paris em 1963 e do Torneio Internacional do Suriname em 1964.

Não foi campeão carioca na temporada de 1961 porque sofreu grave contusão no joelho numa excursão da Seleção Brasileira, em 1960, e só voltou a atuar a 3 de janeiro de 1962, na histórica partida amistosa em que o Botafogo derrotou o Santos por 3 a 0, no Maracanã, diante de 150 mil pessoas numa quarta-feira à noite. Mesmo assim, atuou apenas no primeiro tempo, sendo substituído por China. Nessa noite, Botafogo e Santos receberam as faixas de campeões pelos títulos de 1961 no Rio e São Paulo.

No Campeonato Carioca, foi tricampeão dos artilheiros das temporadas de 1958, 1959 e 1960. Pela Seleção Brasileira, jogou 17 vezes, de 1959 a 1963, marcando 17 gols. Quarentinha – a quem vi jogar desde a estréia, pela televisão – foi, digamos assim, um jogador para lá de estranho. E estou escrevendo isso depois de ouvir depoimentos de jogadores que atuaram com ele em várias temporadas. Através dessas revelações, fiquei sabendo, por exemplo, que ele não se dava com Paulo Valentim (1932-1984), embora os dois tenham sido brilhantes campeões em 1957, com João Saldanha (1917-1990), e em 1962, com Marinho Rodrigues – pai adotivo de Paulo César (Caju) Lima.

Quarentinha não era um jogador vibrador. Pelo contrário: era gélido. Tão gélido quanto Didi (1928-2001). Em 1962, por exemplo, no segundo tempo da decisão contra o Mais Querido acertou uma tesoura voadora em direção ao goleiro Fernando, que não segurou o chute. Garrincha (1933-1983), sempre esperto, meteu a bola dentro do gol e decidiu a partida em favor do Glorioso por 3 a 0. Quarentinha vibrou? Nem um pouco. Voltou andando para o meio de campo como se nada tivesse ocorrido

Na decisão de 1967 – 6 a 2 sobre o Tricolor, recorde até hoje de goleadas em decisões do Campeonato Carioca – recebeu a incumbência de marcar Telê Santana em cima. João Saldanha sabia que por Telê ser um jogador inteligente e técnico, passavam por ele todas as jogadas de ataque do Fluminense. Se Quarentinha cumpriu realmente sua missão, não me recordo. Estava eufórico com os 3 a 0 da primeira etapa e nem prestei atenção.

Me recordo, sim, do verdadeiro esporro que tomou do zagueiro Antônio Correia Thomé, assim que o árbitro Alberto da Gama Malcher apitou o final da primeira etapa. Eu estava de bicão na cadeiras especiais da tribuna e me assustei com a raiva de Thomé. Será que Quarentinha não estava obedecendo João Saldanha? Não sei. Conversei com Thomé, um dia, e ele me disse que apenas exigiu mais empenho do companheiro. Nada mais que isso. Eu não acreditei, por mais que respeite e respeitasse Thomé.

Mas Quarentinha nasceu para fazer gols. Numa excursão à Europa, Pelé, gênio do futebol, deu ele mesmo as instruções a seus companheiros:

– Quando estivermos com a bola no ataque, vamos atrasar para o Quarenta e nos abaixar. Ele vai meter um bomba de onde estiver.

Por isso, Quarenta – tratado assim na pouca intimidade que permitia – marcou 17 vezes na Seleção Brasileira em 17 jogos. Uma marca considerável.
Eu, por mim, preferia um atacante lutador, endiabrado e mal-humorado como Paulo Valentim. Mas não posso deixar de ter saudades do incrível Quarentinha, dotado de um chute que deixava a bola ovalada, tão violento era seu petardo.

Coisas que aconteciam a um Botafogo do passado, que recebia a cada jogo a luz brilhante de sua Estrela Solitária.

Saudações Botafoguenses,
Roberto Porto
portoroberto@uol.com.br



Escrito por Roberto Porto às 00h10
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O guerreiro-artilheiro Paulo Valentim (Final)

Antes de seguir para Buenos Aires, Paulo Valentim anunciou aos companheiros de Botafogo que, daquele momento em diante, sua companheira Hilda Furacão seria a senhora Hilda Valentim. Entre os padrinhos do casamento estavam João Saldanha e o mineiro Américo Pampolini, que também se sagrara campeão de 1957. Dizem que, no sermão ao casal, o padre teria feito referências pouco elogiosas ao passado de Hilda e que Paulo Valentim, irritado, pensara em agredi-lo.

O que é certo é que João Saldanha, ateu de carteirinha, conseguiu acalmar os ânimos e a cerimônia pôde prosseguir. E lá se foi Paulo Valentim para Buenos Aires, casado com Hilda Furacão (foto deles, no apartamento de Buenos Aires), para defender o Boca Juniors, o clube de maior torcida na Argentina. Lá, Paulo Valentim e Hilda moraram no mesmo prédio de Orlando Peçanha, campeão mundial pelo Brasil em 1958 e preterido para a campanha de 1962 no Chile. E o Boca, de jogadores famosos como Ubaldo Rattin, Marzolini, Orlando Peçanha e Sanfilippo, entre outros, sagrou-se campeão em duas temporadas: 1962 e 1964.

Por que Paulo Valentim, artilheiro dos campeonatos argentinos de 1961, 1962 e 1964, ídolo da torcida do Boca Juniors, veio parar no São Paulo na temporada de 1965? Segundo o repórter Paulo Vinícius Coelho, da ESPN Brasil, Paulo Valentim esteve inscrito pelo tricolor paulista em três temporadas: 1965, 1966 e 1967. Nos registros do clube do Morumbi seu nome, porém, é apenas uma anotação sem qualquer comentário. De São Paulo, Paulo Valentim – sempre acompanhado de Hilda Furacão – viajou para Toluca, no México, onde os brasileiros passaram a ter enorme cartaz após a conquista da Copa do Mundo de 1970. Mas beirando os 40 anos, sem fôlego e tresnoitado pelas mesas de pôquer, só lhe restou a opção de trabalhar no cais do porto. Vendo o estado de saúde do marido piorar, consta que Hilda Furacão teria lhe dito que voltaria à velha profissão – a mais antiga do mundo – para que ambos sobrevivessem. Paulo Valentim vetou a pretensão da companheira e eles voltaram ao Brasil.

Parece que Neivaldo Carvalho (1933-2006), eficiente ex-jogador do Botafogo, foi o último contato de Paulo Valentim no Brasil. Pouco antes da Copa do Mundo de 1978, na Argentina, Neivaldo, Cacá, Pampolini, Vavá e muitos ex-jogadores, como Nilton Santos, costumavam bater bola no Caxinguelê, um clube no Horto Florestal do Rio, perto do prédio da Rede Globo. Por incrível que pareça, dessas peladas participava Ermelindo Matarazzo, que jogou nos aspirantes do Botafogo no final da década de 40. Ao final de uma manhã de muita diversão, Pampolini deu um recado a Neivaldo:

– Tem um cara atrás do gol que quer falar com você...

Neivaldo foi até lá e custou a reconhecer o cidadão. Era Paulo Valentim, que o próprio Pampolini, padrinho do casamento com Hilda Furacão, não reconhecera. Paulo Valentim queria dinheiro para comprar duas passagens para Buenos Aires. Neivaldo apelou então para o milionário Ermelindo Matarazzo. O ex-goleiro fez uma exigência:

Dinheiro eu não dou. Dou a você, Neivaldo, que fica encarregado de comprar as passagens e entregá-las em mãos, está combinado?

Neivaldo comprou as passagens e as passou a Paulo Valentim, hospedado numa pensão barata no Flamengo. Quando esteve na pensão, Neivaldo não viu Hilda Furacão, mas ficou assustado com a quantidade de malas que tomavam conta do quarto. E ouviu a última frase do velho companheiro de Botafogo:

Vou morar com a Hilda num apartamento de paredes aveludadas que temos em Buenos Aires...

Seis anos depois, Paulo Valentim estava morto.

Saudações Botafoguenses,
Roberto Porto
portoroberto@uol.com.br



Escrito por Roberto Porto às 00h23
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O guerreiro-artilheiro Paulo Valentim (primeira parte)

No início dos anos 50, Quim Valentim – pai de Paulo Valentim (1932-1984) – não suportou mais as aventuras e desventuras do filho na zona boêmia de Barra de Piraí e decidiu mudar-se de armas e bagagens para Belo Horizonte. Quim tinha recursos, pois era o todo-poderoso dono da banca de jogo de bicho da cidade e, mais que isso, carregava a fama de ter jogado no Atlético Mineiro, pelo qual fora campeão em 1936, formando um trio final com o goleiro Kafunga e o zagueiro Florindo.

Paulo Valentim não queria trocar de cidade mas acabou fazendo sucesso numa partida em Juiz de Fora, atuando pela equipe de Barra de Piraí. Tupi, Sport e Tupinambás fizeram propostas àquele centroavante arisco e corajoso. Mas o clube que finalmente levou o atacante foi mesmo o Atlético Mineiro, no qual Paulo Valentim, em pouco tempo, transformou-se no demolidor das defesas do Vila Nova, Cruzeiro e América. Em Belo Horizonte, Paulo Valentim dormia sob as arquibancadas do velho Estádio de Lourdes, hoje o Diamond Mall. Mas a solidão da concentração empurrou o jovem Paulo Valentim para a boêmia mineira.

Num piscar de olhos, o jovem de Barra do Piraí começou a ficar conhecido na Rua do Comércio (hoje Guaicurus), na Boate Almanara e no ponto efervescente da cidade chamado de Pólo Norte. Foi quando surgiu na vida de Paulo Valentim a figura de uma prostituta pernambucana, baixinha, rechonchuda e que tinha fama de enlouquecer os homens. Quando Paulo Valentim conheceu Hilda, a mulher que carregava o apelido de Furacão – logicamente pelo seu desempenho sexual – não mais a largou. A juventude e o preparo físico de Paulo Valentim não prejudicavam o seu rendimento nos gramados, mas a diretoria do Atlético não se conformava com as noitadas de seu centroavante.

O alvinegro de Belo Horizonte foi campeão de 1955 com Paulo Valentim, mas em 1956, mesmo com todos os gols que marcava, o clube decidiu negociar seu passe com o Botafogo. O dirigente mineiro José Ramos, em entendimento com João Saldanha, conseguiu vender o passe de Paulo Valentim por Cr$ 1 milhão, quantia altíssima para um jogador inteiramente desconhecido no futebol carioca.

Em 1955, depois de cometer a loucura de vender os passes de Dino da Costa e Vinícius ao futebol italiano, o Botafogo foi superado pelo Bonsucesso e não pôde disputar o terceiro turno do Campeonato Carioca. No início de 1956, revoltado com o vexame, João Saldanha saiu em campo e decidiu – com autorização do presidente Paulo Azeredo – reestruturar o departamento de futebol do clube. Além de Didi e Paulo Valentim, João Saldanha negociou as contratações de José Carlos Bauer, do centroavante argentino Alarcón e do ponteiro paraguaio Cañete. Só não pôde promover a volta de Quarentinha (1938-1996) que ainda ficou um ano emprestado ao Bonsucesso.

Mas o Botafogo de 1956, mesmo não sendo campeão, voltou a trilhar o caminho das vitórias e foi o responsável direto pelo tiro de misericórdia no sonho do tetracampeonato do Mais Querido. No turno, derrotou o rubro-negro por 5 a 0 e, no returno, venceu por 1 a 0, gol de Cañete, dando por antecipação o título da cidade ao Vasco. E Paulo Valentim conquistou a posição de titular para o Campeonato Carioca de 1957.

A partir de sua chegada ao Botafogo, Paulo Valentim passou a viver dias de sucesso. Em 1957 foi o herói da conquista do título alvinegro, marcando nada menos do que cinco gols na vitória de 6 a 2 sobre o Fluminense, diante de 130 mil torcedores que pagaram ingresso. Curiosamente, no time campeão, os artilheiros Paulo Valentim e Quarentinha (que retornara ao Botafogo) mal se falavam e em campo não trocavam passes. No ano seguinte, mesmo perdendo o super-super campeonato para o Vasco, o Botafogo fez boa figura e Paulo Valentim – que recebera de Garrincha (1933-1983) o apelido de Macaco Sueco – acabou convocado para a Seleção Brasileira que disputaria em Buenos Aires, em 1959, o Campeonato Sul-Americano. E foi na capital argentina que ele transformou-se em herói nacional ao botar os uruguaios para correr e ainda marcar os três gols da vitória brasileira por 3 a 1. Os argentinos ficaram encantados com a bravura de Paulo Valentim e não sossegaram enquanto o Boca Juniors não comprou seu passe, no início da temporada de 1960.

(continua...)

Saudações Botafoguenses,
Roberto Porto
portoroberto@uol.com.br

PS.: Leiam amanhã, a segunda e última parte deste blog.



Escrito por Roberto Porto às 12h15
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A última vez que vi Garrincha

Fazia um calor dos diabos no Rio naquela noite de novembro de 1981, quando me sentei na confortável poltrona do Electra II da Varig que me levaria a São Paulo. Eu acabara de deixar O Globo por causa de uma discussão despropositada – envolvendo a morte acidental de Cláudio Coutinho (1939-1981) – com o então todo-poderoso diretor de redação Evandro Carlos de Andrade (1932-2001) e tinha um encontro profissional marcado na capital paulista com o velho companheiro Mauro Ivã Pereira de Mello. O comandante, mesmo com os motores da aeronave à meia bomba, ligara o ar-condicionado com força total para refrescar os passageiros.

Instantes depois, num mal ajambrado paletó, acompanhado por dois sujeitos que eu desconhecia, Garrincha passou por mim em direção à salinha que o velho avião tinha nos fundos. Quando Mané passou por mim, dei-lhe um tapinha amistoso no braço e recebi o cumprimento que ele dispensava a todos os fãs:

– Fala, gente boa...

Instantes depois, talvez embalado pelo friozinho agradável, acabei pegando no sono. Creio que fiquei desligado por uns bons 30 minutos. Quando despertei, me senti perdido. O Electra II seguia parado e perguntei ao passageiro a meu lado se já havíamos chegado a Congonhas. A resposta do cidadão me assustou:

– Olha, amigo, nem mesmo decolamos...

Perguntei a razão e ele me explicou o por quê:

– O comandante alertou pelo alto-falante que a bordo há um elemento alcoolizado e assim ele não levantará vôo. Por isso, chamou a polícia para retirá-lo.

Entrei em pânico. Garrincha, certamente, estaria aprontando lá atrás com seus estranhíssimos amigos. E pior: eu teria que presenciar a inédita expulsão do avião de meu ídolo alvinegro, àquela altura já sofrendo com o alcoolismo. Foi então que dois seguranças do aeroporto entraram no Electra II, passaram por mim e retiraram à força um senhor de cabelos brancos que mal se sustentava em pé. Foi uma áfrica retirar o bêbado. Ele se agarrou às poltronas, teve o paletó rasgado e ainda perdeu um sapato antes de ser colocado para fora aos gritos.

Um espetáculo deprimente.

Do meu lugar, aliviado, fiquei feliz em saber que Garrincha embarcara sóbrio. Quando por fim desembarcamos em Congonhas, em meio a tantos passageiros, já não mais vi Garrincha. Mas sua imagem alegre ficou em minha lembrança. Garrincha, é certo, fazia poucas e boas mesmo fora de campo, mas mesmo em sua simplicidade não cometeria o desatino de embarcar bêbado.

Saudades, gente boa...

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br



Escrito por Roberto Porto às 07h22
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