O Blog do Roberto Porto


Quem mordeu Nílton Santos?

Nilton Santos – que completou 81anos em maio – é o que se pode chamar de unanimidade nacional e mundial, pois é o lateral-esquerdo escolhido pela FIFA como o melhor do Século XX. Desse time, por sinal, fazem parte mais três brasileiros: Carlos Alberto Torres (que surpreendentemente declarou a mim ser torcedor do Botafogo), Garrincha e Pelé. Mas Nílton Santos, por mais pacífico e paciente como é hoje em dia, não foi santo o tempo todo, sem qualquer trocadilho ou segunda intenção.

Sem citar as brigas com Armando Marques, como jogador ou supervisor do Glorioso (esta, em 1971), me recordo de pelo menos mais três: uma com o zagueiro Tórbis, do São Cristóvão, em 1951; outra com Valdemar Sujeira, do Vasco, por volta de 1963; e, por fim, a mais grave, na Copa do Mundo de 1954, com o meio-campo Jozsef Boszik, da Hungria.

Nílton Sempre foi valente em defesa do Botafogo e da Seleção Brasileira. Hoje, faz justiça ao sobrenome que carrega, que inspirou até um lindo poema de Armando Nogueira.

De todos os atritos de Nílton Santos como jogador, o mais curioso, sem sombra de dúvida, foi com Tórbis, zagueiro do São Cristóvão, em General Severiano. Tórbis, simplesmente, mordeu o lábio superior de Nílton Santos, com bigode e tudo, num tumulto generalizado no campo do Botafogo. Em meu implacável arquivo de fotos alvinegras, ele aparece já no Maracanã, após a briga, rodadas depois (foto), com um imenso esparadrapo do lado esquerdo da boca, logo abaixo do nariz.

Os jogadores da foto que ilustra o blog de hoje são: Gérson dos Santos, Osvaldo Baliza, Nílton ("esparadrapo") Santos, Arati, Ruarinho e Juvenal (de pé); Paraguaio, Geninho, Zezinho, Octávio Sérgio e Braguinha (agachados).

Se não me engano – e sobre Nílton Santos sei quase tudo – hoje, sem o bigodinho do passado, ele ainda tem uma cicatriz no local. Prestem atenção e verão que tenho razão. Como não estava em General Severiano nesse dia, não sei a razão do conflito. Sei apenas que os 22 jogadores se embolaram à porta do túnel que dava entrada aos vestiários. O que aconteceu depois, também ignoro, mas acredito que a partida prosseguiu, com várias expulsões.

Certa vez – faz algum tempo – viajamos juntos para São Paulo, onde Nílton seria entrevistado no programa Bola da Vez, da ESPN Brasil. Apesar do pavor de avião, ele me narrou pelo menos duas curiosas histórias. A primeira, sobre sua relação de amizade com Carlito Rocha (1894-1981) e a segunda sobre Heleno de Freitas (1920-1959), com quem jogou uma vez no Botafogo e, por sorte, em nenhuma ocasião quando o Vasco foi campeão invicto de 1949. No turno, Heleno não atuou em General Severiano e, no returno, em São Januário, Heleno jogou mas foi Nílton Santos quem, machucado, não pôde estar em campo – felizmente para o futebol.

Sobre Carlito Rocha, que praticamente o lançou para o futebol, em 1948, Nílton Santos acha que o antigo presidente do Botafogo morreu brigado com ele. Tudo porque Nílton não avisou que iria encerrar a carreira em dezembro de 1964, no Maracanã, ironicamente com uma vitória de 1 a 0 sobre o Mais Querido (gol de Roberto Miranda, de cabeça), deixando a decisão do título unicamente para Fluminense e Bangu (Fluminense campeão). Nílton ainda faria uma partida amistosa na Bahia, por exigência contratual, mas, oficialmente, despediu-se mesmo foi contra o Simpaticíssimo.

Quanto a Heleno, os dois nunca se deram bem desde o primeiro treino em General Severiano, com Nílton atuando entre os reservas. Heleno tomou um célebre e incrível drible de corpo de Nílton e o xingou. Anos mais tarde, quando Heleno já não mais raciocinava, apareceu na concentração do Botafogo, no Hotel Plaza, na Avenida Princesa Isabel, em Copacabana, pedindo dinheiro aos jogadores alvinegros. Nílton Santos negou-se peremptoriamente a ceder, mas Braguinha entregou ao antigo centroavante 20 cruzeiros. Depois que Heleno foi embora, Braguinha tomou uma bronca de Nílton, dizendo que Heleno iria gastar tudo em éter para cheirar.

Saudações Botafoguenses,

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br

PS.: Para facilitar a vida dos Botafoguenses que me dão a honra de ler este Blog, mexemos nas configurações dos Comentários. Agora, para os comentários serem aceito, vocês não têm que – obrigatoriamente – indicar algum site ou blog. Bastam nome, e-mail e cidade, OK?



Escrito por Roberto Porto às 23h15
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Heleno de Freitas, sempre herói alvinegro

Jamais entendi a razão pela qual meu pai, Nélson Porto (1909-1984), ferrenho rubro-negro até o final de seus dias – mas associado do Glorioso – decidiu me levar a General Severiano naquele domingo, 12 de outubro de 1947, para assistir a um inesquecível Botafogo x América. É possível que eu tenha pedido a ele, mas não me recordo. O fato é que, para variar, chegamos atrasados e as sociais estavam lotadas. O jeito foi ficar de pé, junto ao alto alambrado, o que prejudicava terrivelmente a minha visão da partida.

Não me lembro de muita coisa, pois contava apenas sete anos. Mas tempos depois, devorando o livro “O Futebol no Botafogo – 1904-1950”, de Alceu Mendes de Oliveira Castro, fiquei sabendo de toda a história. Em poucas e resumidas palavras, o Botafogo fez 2 a 0, gols de Heleno, mas bobeou e o América, que tinha uma excelente equipe, empatou. No finalzinho da partida, no gol do Hospital Rocha Maia, que ficava à esquerda, pelo lado direito do campo, Santo Cristo cobrou um córner alto sobre a área e Heleno – sempre ele – meteu de cabeça o gol da vitória por 3 a 2. Foi a bola beijar as redes e Mário Vianna, com seus dois enes, encerrar o jogo provocando protestos dos americanos que reclamavam que ele dera acréscimos em excesso.

Desse lance eu me lembro como se fosse hoje, do tumulto em campo e dos jogadores do Botafogo – numa atitude incomum – carregando um companheiro em triunfo no centro do campo. E me recordo também que, antes do terceiro gol do Glorioso, o goleiro Ary Nogueira César contundiu-se e desmaiou em campo. O socorro médico a Ary foi exatamente à minha frente, junto ao alambrado à direita das sociais. Até hoje, tantas décadas depois, o cheiro do éter que os médicos jogaram sobre Ary está nas minhas narinas.

Como não havia substituição – e esse fato também está gravado em mim – o zagueiro Gérson dos Santos tirou a suada camisa de Ary e vestiu-a por cima da que usava, indo para o gol. Na hora, pensando comigo mesmo, imaginei se teria coragem de vestir uma camisa por cima da minha, ainda mais toda suada e suja. Mas Gérson dos Santos não vacilou e ainda fez boas defesas, até o gol maravilhoso de Heleno. O mineiro Gérson dos Santos era capaz de tudo.

O que mais me fascinava naquele Botafogo eram as camisas de botões e golas alvinegras – tais quais camisas sociais de mangas curtas – e que o time de 1947 (foto acima) usou naquele único campeonato. Dizem, não posso provar, que Carlito Rocha, admirador do River Plate, foi o autor intelectual do design, que não deu certo. As camisas rasgavam com facilidade, estavam sempre para fora dos calções dos jogadores e pior: os botões caíam no agarra-agarra das disputas. No ano seguinte, 1948, elas foram descartadas.

Para os colecionadores, o time da foto, pela ordem, é Nílton II, Gérson dos Santos, Osvaldo Ávila, Ary Nogueira César, José Sarno e Juvenal Francisco Dias; agachados, Santo Cristo, Geninho, Heleno de Freitas, Otávio Sérgio e Teixeirinha. A formação da foto acima (que não é a da vitória sobre o América, pois Geninho não pôde atuar) é Ary, Nílton II, Gérson dos Santos e Sarno; Ávila e Juvenal; Santo Cristo, Geninho, Heleno, Otávio e Teixeirinha.

Quando terminou a partida, impressionado com a festa que os próprios jogadores faziam àquele companheiro, perguntei a meu pai:

– Quem é aquele jogador carregado pelos outros?

Meu pai foi curto e grosso:

– Meu filho, aquele é o Heleno...

Saudações Botafoguenses,

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br

PS: O livro sobre o futebol do Botafogo, de Alceu Mendes de Oliveira Castro, é tão raro que já me ofereceram R$7 mil para comprar o exemplar que ganhei de presente. Recusei e recusarei qualquer oferta: amor não tem preço. E o Botafogo é o meu amor.



Escrito por Roberto Porto às 08h55
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Vitória Inesquecível sobre “O Mais Querido”

Não é de hoje que o Botafogo de Futebol e Regatas me proporciona as mais incríveis e inesperadas surpresas. Faz tempo – século passado para que vocês tenham uma idéia – mas no domingo, 28 de novembro de 1948, meu pai, rubro-negro da cabeça aos sapatos, aproveitou a passagem de meu avô pelo Rio, vindo de Pernambuco – origem da família – para convidá-lo para um almoço em nosso apartamento em Laranjeiras. O coronel Porto, da Guarda Nacional de Pernambuco, era uma figura imponente. Tinha uma voz tonitruante e chegava a me assustar. Não preciso dizer que o velho coronel que se foi deste mundo em 1953, também torcia pelo Sport Club Recife e, logicamente, pelo Mais Querido no Rio. E cá entre nós, o pai de meu pai era para mim, àquela altura do campeonato, um ser quase extraterreno.

Como criança, almocei mais cedo e liguei o rádio para escutar Botafogo x Simpaticíssimo em General Severiano. O primeiro tempo foi um desastre para o Botafogo, que começou perdendo de 2 a 0. Quando meu pai e meu avô   almoçavam, souberam e passaram a me provocar. Mas fui capaz de resistir estoicamente à chegada do segundo tempo e vibrei, mesmo na frente deles, quando Osvaldo Ávila diminuiu para 2 a 1. Quando faltavam apenas 20 minutos e as visitas já estavam na sala de estar, eis que Oswaldo Baliza recolocou a bola em jogo e retornou de costas para sua meta. Gringo pegou de primeira e colocou o rubro-negro em vantagem por 3 a 1. Um frangaço, daqueles de integrar com brilho qualquer pegadinha de TV.

Aí, meus amigos, não suportei mais as gozações, desliguei o rádio – um enorme e potente rádio, por sinal – e tirei literalmente o time de campo. Abri a porta do elevador e, rigorosamente sozinho, fui brincar (não me perguntem de quê) no jardim do prédio. Quando subi já estava escuro e eu, amargurado, já não encontrei mais ninguém em casa – ainda bem. Foi quando a campainha da porta tocou e fui abrir. Para minha surpresa, lá estava meu querido e inesquecível tio Júlio Lopes Fernandes – o responsável único pela paixão que sinto até hoje pelo Botafogo.

Como ele era antes de tudo um esportista – costumava aplaudir os adversários quando entravam em campo, coisa que não faço – não estranhei o sorriso dele. Só fiquei abestalhado quando ele me chamou:

– Venha de lá com um abraço...Vencemos por 5 a 3...

Foi então que ele me relatou que o Botafogo, depois dos 3 a 1 adversos, reagiu de uma maneira ferrenha e determinada e, através de Otávio Sérgio, Braguinha, Sílvio Pirilo e Paraguaio (na foto – gentilmente cedida por meu amigo e companheiro de escola, o jornalista Sergio Cavalcanti –, com a gloriosa camisa 7), mostrando que nada impediria que o Glorioso se sagraria campeão daquele ano.

Hoje, quase 48 anos depois, cheguei à conclusão de que foi ótimo não ter escutado a narração dos restantes quatro gols do Botafogo. Admito que seria capaz de quebrar alguma coisa de valor e, depois, teria que me haver com minha mãe, atualmente internada num CTI com pouquíssimas chances de sobreviver. Minha mãe, por sinal, nunca teve time. Disse que foi Flamengo, Vasco e Fluminense. Mas, apesar de ter três dos quatro filhos botafoguenses, jamais torceu pelo alvinegro, nem na época de Heleno ou de Garrincha. Sempre pareceu incólume à paixão dos três filhos.

Mas como sou insistente, há poucos meses, enquanto ela ainda estava em forma, meti uma conversa de cerca lourenço nela e forcei a barra:

– Mãe, afinal de contas, depois de tantos anos, gostaria de saber por qual clube você torce?

Ela me olhou séria e respondeu na lata:

– Por nenhum...

Saudações Botafoguenses

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br

 



Escrito por Roberto Porto às 07h49
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O Cabalístico Número Sete

Que o sete é um número cabalístico creio que não há dúvida. Ou há? Vejamos algumas listas: os sete reis de Roma; as sete maravilhas do mundo; os sete pecados capitais; os sete sábios da Grécia Antiga; os sete campeões do Cristianismo; as sete pragas do Egito; as sete aves de rapina (o urubu está incluidíssimo no grupo); as sete cores do arco-íris; as sete artes; os sete dias da semana; as sete notas musicais; os sete elementos na natureza; os sete mares da Antiguidade; as sete colinas de Roma; o bicho se sete cabeças; os sete anões de Branca de Neve e por aí vai para não entrarmos na Bíblia, que está repleta de números sete. Vamos parar por aqui porque o blog tem tamanho.

Mas, finalmente, entremos no Botafogo de Futebol e Regatas. A partir de 1948 – quando as camisas foram obrigatoriamente numeradas – quais foram os sete mais importantes jogadores que vestiram a sete? Em minha opinião, Paraguaio, Garrincha, Jairzinho, Rogério, Zequinha, Maurício e Túlio Maravilha. Não há um único e escasso deles que não tenha sido campeão pelo clube. Mas talvez, muitos alvinegros achem que Jairzinho (na foto, num jogo contra o Palmeiras) tenha se caracterizado mais como 10. Mas isso não corresponde à realidade. Depois da venda de Garrincha para o Corinthians, ele foi o sete que o substituiu. E no México, em 70, Jair era o sete.

E, do ponto de vista estritamente humano, quais foram as sete maiores tragédias vividas pelo Glorioso? O tiro que o campeão de 1910 Dinorah Cândido de Assis levou de Euclides da Cunha, em 1909; a morte na quadra de basquete de Armando Albano, em 1942 (que acabou provocando a fusão do Regatas com o Futebol); o triste fim de Heleno de Freitas, o craque galã, em 1959, num hospício em Barbacena; a morte de Garrincha em 1983, antes de completar 50 anos; o assassinato do lateral-esquerdo Chicão (campeão de 1961) num posto de gasolina em Bonsucesso; o afogamento, em 1963, do também lateral-esquerdo Ivã de Freitas, na Barra da Tijuca e a morte, também na Barra, do ponteiro-esquerdo Dirceu José Guimarães num acidente de carro.

Mas vamos a coisas mais alegres. Quais foram os sete principais artilheiros da história do Botafogo? Valdir (Quarentinha) Cardoso Lebrego (308 gols em 446 jogos); Carlos Carvalho Leite (275 gols em 325 jogos); Mané Garrincha (242 gols em 612 jogos); Heleno de Freitas (207 gols em 233 jogos); Jairzinho (189 gols em 413 jogos); Nilo Murtinho Braga (185 gols em 201 jogos) e Otávio Sérgio de Moraes (171 gols em 200 jogos). E os sete mais famosos jornalistas botafoguenses? Armando Nogueira, Sandro Luciano Moreyra, João Jobim Alves Saldanha, Geraldo Romualdo da Silva, Luiz Piñeda Mendes, Oldemário Vieira Touguinhó e Arthur Dapiève. E os sete mais destacados intelectuais? Vinícius de Moraes, Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Oscar Niemeyer, Lúcio Rangel e Juscelino Kubistcheck de Oliveira. E para terminar por hoje, só por hoje, vamos aos sete mais conhecidos radialistas: Valdir Amaral, Clóvis Filho, Geraldo Borges, Eraldo Leite, Luiz Penido, Valdir Luiz e Léo Batista.

Quanto a mim, depois de tanta experiência, não passo de um simples seguidor do facho em que a Estrela Solitária me conduz.

Saudações Botafoguenses,

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br

PS.: Meu atentíssimo leitor Ronaldo Antonio Corrêa (a quem agradeço a gentileza do socorro amigo), corrige duas informações do blog "Coisas que só acontecem ao Botafogo", do dia 13) em que minha memória escorregou na montanha de informações que carrega desde priscas eras. Com os devidos agradecimentos ao Ronaldo, vamos a elas:

a) nosso Marinho "Bruxa" Chagas, na verdade, foi trocado pelo ponta-direita "Búfalo" Gil, Paulo Cesar Caju (que o então técnico da Seleção Brasileira, Cláudio Coutinho, deixou no Brasil, junto com o meio-campista Falcão e o próprio Marinho Chagas, e perdeu a Copa da Argentina, em 1978, aquela do "campeão moral", lembram?) e o lateral-esquerdo Rodrigues Neto. Esses três formaram a base do time que ficou 52 jogos invicto em 1977/78. Manfrini chegou veio no ano anterior, junto com Mário Sérgio, trocado por Dirceu Guimarães. Segundo Ronaldo, "parecia uma boa troca, mas não foi".

b) o goleiro da foto que ilustra o blog é mesmo Ubirajara Alcântara (que, realmente, tinha o título de "o negro mais bonito do Brasil") e não Ubirajara Mota, como citei. Ubirajara Mota, que veio do Bangu, foi o goleiro que disputou a triste final de 1971 e foi escandalosamente empurrado para dentro do gol do Botafogo pelo lateral-esquerdo Marco Antônio, em falta clamorosa não marcada por José Marçal Filho (devidamente "vingada" por Waldir Luiz, como já contei), que redundou no gol do ponta-esquerda pernambucano Lula, ao apagar das luzes - como diziam os locutores de antigamente - dando o campeonato daquele ano ao Tricolor, título que estava praticamente em nossas mãos e que, além de deixarmos escapar pelos dedos, ainda teve a "gentil colaboração" do Marçal, um tremendo soprador de apito, como dizia Mário Vianna.



Escrito por Roberto Porto às 18h04
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Arósio x Hilda Furacão

Na palestra que fiz no início de junho na Academia Brasileira de Letras – Viagem com o Botafogo através de Literatura Brasileira – falei dos incontáveis livros que o Glorioso inspirou (coloquei uma pilha deles em cima da mesa) mas lembrei também que o alvinegro de General Severiano inspirou dois filmes sobre Garrincha (1933-1983) e duas mini-séries na televisão. A primeira, chamada Desejo, com Tarcísio Meira e Vera Fischer, sobre a Tragédia da Piedade – envolvendo a morte de Euclides da Cunha em 1909 – e a outra, de tremendo sucesso, que levou o nome de Hilda Furacão, com a atriz Ana Paula Arósio (fazendo agora Páginas da Vida), encarnando Hilda, a mais famosa prostituta de Belo Horizonte na década de 50.

Sobre a primeira telenovela, pouco a comentar, a não ser o fato de ignorar por completo que o zagueiro Dinorah Cândido de Assis, campeão de 1910, acabou suicidando-se nas águas do Rio Guaíba, pois foi ficando paralítico com o tiro que levou no pescoço do autor de Os Sertões. Mas Hilda Furacão – que está vendendo até DVDs – é uma mentira dos pés a cabeça, como costumava dizer meu companheiro de redação, Nélson Rodrigues (1912-1980). Quem a tirou dos prostíbulos da Savassi, na capital mineira, foi simplesmente Paulo Valentim (1932-1984), artilheiro e ídolo do esquadrão montado pelo time de General Severiano a partir de 1955.

A verdadeira Hilda Furacão (na foto com Paulo Valentim em Buenos Aires) nada tinha a ver, é óbvio, com a Ana Paula Arósio que viveu seu papel na televisão. A autêntica Hilda Furacão casou-se na igreja com Paulo Valentim, tendo como padrinho João Saldanha (1917-1990), numa cerimônia que quase virou notícia de jornal. Quem me contou tudo isso foi meu amigo Neivaldo Carvalho (1933-2006), um dos mais corajosos e ecléticos jogadores que o Botafogo já teve até os dias de hoje e contemporâneo de Paulo Catimba Valentim nos grandes e inesquecíveis tempos do clube de General Severiano.

A cerimônia do casamento teve momentos de suspense. A certa altura, o padre, com pouquíssima sutileza, fez um sermão e, dirigindo-se à Hilda, disse que esperava que ela abandonasse de vez a chamada mais antiga das profissões. Paulo Valentim irritou-se e queria bater no padre. Curiosamente, quem interveio e evitou um conflito generalizado foi nada menos do que João Saldanha, que de religioso não tinha nada, pois era marxista-leninista de carteirinha. Por sorte a cerimônia chegou ao final e, entre mortos e feridos, todos se salvaram. Só houve muito medo por parte dos coroinhas que ajudavam o padre.

Daí em diante, pelo menos a partir de 1984 – ano da morte de Paulo Valentim – nada se sabe de Hilda Furacão. Neivaldo me dizia que acreditava que ela teria ido para o México – por onde Paulo Valentim também andou – e simplesmente desaparecido do mapa. Quanto a Paulo Valentim – ídolo também no Boca Juniors, por fazer muitos gols no River Plate – sabe-se apenas que morreu pobre em Buenos Aires, e que só não foi enterrado em cova rasa, para indigentes, porque o presidente do Boca, J.J.Armando comprou-lhe uma sepultura modesta.

E eu pergunto aos leitores deste blog: quem tem tantas histórias trágicas, gloriosas, supersticiosas e galhofeiras como este clube chamado Botafogo de Futebol e Regatas?

Saudações Botafoguenses,

Roberto Porto

portoroberto@uol.com.br



Escrito por Roberto Porto às 14h09
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